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CONTAMINAÇÃO AMBIENTAL SILENCIOSA DO MERCÚRIO NA AMAZÔNIA

Não poderia deixar de denunciar, mais uma vez, como pesquisador, e, sobretudo como cidadão brasileiro, ao final do século XX e início do século XXI, a ocorrência do grave problema ambiental que vem sendo causado pelo mercúrio na Região Amazônica Brasileira.

Há mais de uma década, venho alertando que constitui-se como fonte significativa de liberação do mercúrio para o meio ambiente, a atividade garimpeira do ouro. Embora, também, a queima da vegetação esteja atualmente sendo indicada como fonte contribuidora respectiva, porém, sem maiores indicadores quantitativos atuais.

Independentemente de sua origem, a espécie química Hgo – mercúrio metálico na forma de vapor – é a iniciadora dos processos de contaminação do homem e do meio ambiente, em nossa Região. O garimpeiro, a quando da queima do amálgama ouro-mercúrio, é contaminado pela liberação de vapores mercuriais, que também se disseminam pelo meio ambiente, atingindo pessoas nas áreas periféricas circundantes. E, mais ainda, a espécie Hg++ (mercúrica), assim obtida nos sedimentos bênticos, e, no material em suspensão filtrável em 0,45 microns é transformada, biótica e/ou abioticamente, na espécie CH3 Hg+ (monometilmercúrio), que, por sua vez, incorpora-se à cadeia alimentar aquática, contaminando os peixes, principalmente, e sendo, estes, consumidos com freqüência diária significativa, por populações assim expostas, como entre outras, a ribeirinha, às margens de rios e igarapés atingidos. Fato que gera sérias preocupações, pois o metilmercúrio pode atingir grupos de riscos como os das mulheres (gestantes e em idade fértil) e dos fetos, pois que os sítios-alvos orgânicos preferenciais a serem atingidos localizam-se no Sistema Nervoso Central e no Sistema Nervoso Periférico, ocasionando o aparecimento de sintomas clínicos, inerentes a doenças neurológicas respectivas.

Hoje, já existem no Núcleo de Medicina Tropical da UFPA, no Instituto Evandro Chagas e nos arquivos de vários outros grupos de pesquisadores regionais, nacionais e internacionais, numerosos dados de amostras biológicas e ambientais, analisadas quantitativamente, com métodos precisos e exatos de Química Analítica instrumental e que revelam, de modo científico, que nas áreas impactadas pela garimpagem de ouro na Região Amazônica, o homem e o meio ambiente estão sendo atingidos, e, portanto, contaminados de modo perigoso e silencioso.

Assim, solicito, mais uma vez, às autoridades governamentais da área de saúde e do meio ambiente, deste País, ao contrário do silêncio que até agora tem apresentado, assumam decisão política, definida e definitiva, de controle das atividades de garimpagem de ouro na Amazônia, e, de investigação epidemiológica das agressões à saúde humana e ambiental, aqui mencionadas.

Creio também, que, assim agindo, poderão contar no momento certo, com a colaboração dos pesquisadores até agora envolvidos, neste grave problema ambiental.

Urge o agir para o dever cumprir! Finalmente, alerto para que não devam ser perdidos, os tempos de prevenir e o de corrigir, a fim de que, não se chegue ao de lamentar situações, quem sabe, até mesmo irreversíveis. Rogo a DEUS para que, assim, nunca chegue a acontecer.